terça-feira, 27 de novembro de 2012

Diálogo adaptado de 'o lobo da estepe'- Careta, linear e bom


Primeiro encontro.

Ele-Com licença.
Ela- A vontade, mas quem é você?
Ele- Obrigado. Não consigo ir pra casa. Não quero, não posso, não quero. Quero ficar aqui do seu lado. Se você permitir, claro... Não posso ir pra casa.
Ela- Pode ficar a vontade. Por que não quer ir pra casa?
Ele- Não posso. Tenho algo a minha espera. Não... Não posso. É horrível!
Ela- É melhor deixar esperando então e  fica  por aqui. Mas antes de  qualquer coisa, vamos limpar esses óculos, que não vai conseguir ver nada. (limpa com um guardanapo) O que vamos beber?Cerveja... Não. Vinho tinto. Tá frio NE? E um queijo quente, você pelo visto está precisando.
(Ele come)
Ela- Bom garoto. Não é de tornar as coisas difíceis. Mas posso apostar que há muito tempo não obedece ninguém.
Ele- É verdade. Como sabe?
Ela- Não é difícil. Obedecer é como comer ou beber. Quando se passa muito tempo sem fazer uma coisa ou outra, não é preciso que insistam. Não ficou satisfeito por fazer o que lhe disse?
Ele- Muito. Nossa! Você parece saber de tudo!
Ela- Você é que facilita as coisas. Acho que seria capaz até mesmo de dizer o que te espera em casa e tanto te angustia. Mas não precisa disso. Você já sabe o que é também. Assunto desagradável. Ou a gente se enforca e está tudo bem porque devemos ter lá nossas razões pra isso, ou então continua vivendo sem se preocupar senão com a vida.
Ele- Antes fosse simples assim... Você não sabe o quanto tenho me preocupado com a vida. E que diferença fez?Enforcar-se deve ser difícil, mas viver é muito mais! Só Deus sabe quanto é difícil!
Ela- Você vai ver como é SUMANAMENTE fácil! Já começamos bem. Limpamos os óculos, você comeu, bebeu e agora vamos dançar.
Ele- Acho que mais uma vez você tinha razão. Nada mais desagradável pra mim do que deixar de satisfazer um desejo seu.  Mas dessa vez não sou capaz! Não sei dançar, ritmo nenhum. Nunca aprendi a dançar nada. Agora, tá vendo como que a coisa não é tão fácil quanto diz?
Ela- Pera aí! Você não sabe dançar? Dança nenhuma? E anda por aí dizendo que teve de lutar na vida. Essa é uma mentira da grossa então. Como pode dizer que a vida te dá trabalho se nem sequer sabe dançar?
Ele- É que nunca aprendi. Não pude. Sei lá.
Ela- Mas aposto que aprendeu a ler, a escrever... A somar, deve saber alguma língua também, além da nossa...arranha um Inglês, pelo menos. Aposto que passou uns dez ou doze anos na escola, deve até enrolar um espanhol... Mas a verdade é que nunca dedicou um pouco de tempo nem dinheiro para aprender a dançar. Que vergonha/
Ele- Foram meus pais. Me colocaram em curso de Inglês, Espanhol, todas essas coisas... Mas nunca pensaram em aula de dança... Eles mesmos não sabiam.
Ela- Agora vai por a culpa nos pais! Que ridículo! Também perguntou a eles se podia vir aqui hoje no Águia Negra?
Ele- Eles morreram. Quando eu ainda era pequeno.
Ela-Mas você parece não ser criança há um tempinho. E depois? O que fez durante todos esses anos?
Ele- Ah... Nem eu sei... Estudei, aprendi música, li, escrevi, viajei...
Ela- Engraçada a ideia que você tem da vida. Sempre metido em coisas complicadas e não aprendeu as fáceis. Foi falta de tempo? Ou uma questão de prioridade? Não importa, graças a Deus não sou sua mãe, mas agir assim, como se já tivesse experimentado toda a vida e nela não encontrasse nada de interessante... Isso não! Isso não pode!
Ele- Não fica brava! Já sei que estou louco!
Ela- Ah.. Sem essa! Não está nada louco! Muito pelo contrário... É racional de uma maneira estúpida! Vamos lá! Come mais um sanduíche. Depois você me conta!
Ele come.
Ela- E como se chama?
Ele diz.
Ela- Que nome infantil! E continua sendo uma criança mesmo... Não vou mais te chatear com o assunto da dança. Mas diga lá. O que aconteceu de tão grave pra te fazer correr desesperado? Brigou com alguém?
Ele- Na verdade não foi nada de grave. Fui convidado pra jantar na casa de um professor da faculdade, mas não devia ter ido. Não estou acostumado a sentar entre as pessoas e conversar. Já esqueci, se é que você me entende. Entrei na casa com a sensação de que algo não ia bem. E quando deixei a mochila no sofá me veio logo a ideia de que logo precisaria dela. Tinha nessa casa uma gravura, uma gravura estúpida que me aborreceu muito!
Ela- Gravura?
Ele- É... Era um quadro. Um quadro que representava o Goethe, sabe, o poeta Goethe. Mas não estava ali representado como ele mesmo. Na verdade, não se sabe muito como ele foi na realidade, já morreu há quase 200 anos. Mas algum pintor teve coragem de representa-lo tão arrumadinho, penteadinho, alambicado conforme sua imaginação que o retrato ficou ridículo. Não sei se me compreende?
Ela- Perfeitamente. Não se preocupe. Continua.
Ele- Eu sei que não tinha a menor necessidade de estar olhando pro retrato.
Ela- Com certeza.
Ele- Mas em primeiro lugar, eu tive muita pena daquele Goethe. Por ter enorme consideração por ele e porque pensei: Estou aqui sentado entre pessoas que me parecem iguais a mim e que devem amar Goethe tanto quanto eu e devem ter uma imagem dele como eu tenho na alma e no entanto ali está aquele retrato falso e meloso e acham maravilhoso, não tem a menor ideia de que o espírito desse retrato é o contrário do espírito de Goethe. Acham o quadro admirável da mesma forma como valorizam quase tudo que eu também estimo. Mas nessa altura eu já tinha perdido toda confiança, amizade e sentimento de afinidade com essas pessoas amáveis. Até porque nossa amizade não era lá grande coisa. Fiquei indignado, triste por me sentir incompreendido e sozinho. Você me acha louco agora, claro?
Ela- Não! E depois? Você quebrou o quadro na cabeça deles?
Ele- Não. Mas cheguei a insultar o professor e saí correndo. Queria ir pra casa, mas...
Ela- Mas lá você não encontraria nenhuma mamãe pra cuidar do nenenzinho. Nunca vi ninguém tão criança quanto você!Há quase 200 anos Goethe está morto e (nome dele) o admira tanto que faz dele uma ideia maravilhosa de como teria sido, e isso está no seu direito não é? Mas o pintor, que também o admira e dele tem a sua ideia, está errado, assim como o professor e já que isso não agrada (nome dele), ele fica desesperado a ponto de insultar as pessoas e sair correndo. Se fosse uma pessoa normal teria simplesmente rido do pintor e do professor. Se fosse louco teria atirado o quadro na cabeça deles. Mas como não passa de um garotinho, só sabe correr pra casa e pensar em se matar. Olha, compreendi muito bem a sua história,(nome dele). É muito engraçada. Juro, me faz rir. Espera aí. Não precisa beber tão rápido. Assim vai ficar muito mais bêbado! Nossa, a gente tem que ensinar tudo pra você!(levanta-se)
Ele- Não. Por favor senhorita! Não vai embora! Me ensina tudo!
Ela- O que mais você quer que eu te ensine?
Ele- Tudo o que achar que devo aprender!
Ela- Olha, vou te dizer mais uma coisa. Há meia hora sei que se chama (nome dele). Sei porque te perguntei. Mas você nem sequer se interessou em saber o meu nome.
Ele- Não! Por favor! Me interesso sim!
Ela- Agora é tarde. Se nos encontrarmos de novo, pode me perguntar.  Hoje eu não digo. E agora eu vou dançar.
Ele- Espera! Não vai! Você pode dançar o quanto quiser, mas volta pra cá depois!
(Ela sorri.) Volta? Promete?
Ela- Prometo, mas isso pode durar um instante, uma hora ou até mais. Fecha os olhos e descansa um pouco. É disso que está precisando. (sai)





Nenhum comentário:

Postar um comentário