Primeiro encontro.
Ele-Com licença.
Ela- A vontade, mas
quem é você?
Ele- Obrigado. Não
consigo ir pra casa. Não quero, não posso, não quero. Quero ficar aqui do seu
lado. Se você permitir, claro... Não posso ir pra casa.
Ela- Pode ficar a
vontade. Por que não quer ir pra casa?
Ele- Não posso.
Tenho algo a minha espera. Não... Não posso. É horrível!
Ela- É melhor
deixar esperando então e fica por aqui. Mas antes de qualquer coisa, vamos limpar esses óculos, que
não vai conseguir ver nada. (limpa com um guardanapo) O que vamos
beber?Cerveja... Não. Vinho tinto. Tá frio NE? E um queijo quente, você pelo
visto está precisando.
(Ele come)
Ela- Bom garoto.
Não é de tornar as coisas difíceis. Mas posso apostar que há muito tempo não
obedece ninguém.
Ele- É verdade.
Como sabe?
Ela- Não é difícil.
Obedecer é como comer ou beber. Quando se passa muito tempo sem fazer uma coisa
ou outra, não é preciso que insistam. Não ficou satisfeito por fazer o que lhe
disse?
Ele- Muito. Nossa!
Você parece saber de tudo!
Ela- Você é que
facilita as coisas. Acho que seria capaz até mesmo de dizer o que te espera em
casa e tanto te angustia. Mas não precisa disso. Você já sabe o que é também.
Assunto desagradável. Ou a gente se enforca e está tudo bem porque devemos ter
lá nossas razões pra isso, ou então continua vivendo sem se preocupar senão com
a vida.
Ele- Antes fosse
simples assim... Você não sabe o quanto tenho me preocupado com a vida. E que
diferença fez?Enforcar-se deve ser difícil, mas viver é muito mais! Só Deus
sabe quanto é difícil!
Ela- Você vai ver
como é SUMANAMENTE fácil! Já começamos bem. Limpamos os óculos, você comeu,
bebeu e agora vamos dançar.
Ele- Acho que mais
uma vez você tinha razão. Nada mais desagradável pra mim do que deixar de satisfazer
um desejo seu. Mas dessa vez não sou
capaz! Não sei dançar, ritmo nenhum. Nunca aprendi a dançar nada. Agora, tá
vendo como que a coisa não é tão fácil quanto diz?
Ela- Pera aí! Você
não sabe dançar? Dança nenhuma? E anda por aí dizendo que teve de lutar na
vida. Essa é uma mentira da grossa então. Como pode dizer que a vida te dá
trabalho se nem sequer sabe dançar?
Ele- É que nunca
aprendi. Não pude. Sei lá.
Ela- Mas aposto que
aprendeu a ler, a escrever... A somar, deve saber alguma língua também, além da
nossa...arranha um Inglês, pelo menos. Aposto que passou uns dez ou doze anos
na escola, deve até enrolar um espanhol... Mas a verdade é que nunca dedicou um
pouco de tempo nem dinheiro para aprender a dançar. Que vergonha/
Ele- Foram meus
pais. Me colocaram em curso de Inglês, Espanhol, todas essas coisas... Mas
nunca pensaram em aula de dança... Eles mesmos não sabiam.
Ela- Agora vai por
a culpa nos pais! Que ridículo! Também perguntou a eles se podia vir aqui hoje
no Águia Negra?
Ele- Eles morreram.
Quando eu ainda era pequeno.
Ela-Mas você parece
não ser criança há um tempinho. E depois? O que fez durante todos esses anos?
Ele- Ah... Nem eu
sei... Estudei, aprendi música, li, escrevi, viajei...
Ela- Engraçada a ideia
que você tem da vida. Sempre metido em coisas complicadas e não aprendeu as
fáceis. Foi falta de tempo? Ou uma questão de prioridade? Não importa, graças a
Deus não sou sua mãe, mas agir assim, como se já tivesse experimentado toda a
vida e nela não encontrasse nada de interessante... Isso não! Isso não pode!
Ele- Não fica
brava! Já sei que estou louco!
Ela- Ah.. Sem essa!
Não está nada louco! Muito pelo contrário... É racional de uma maneira
estúpida! Vamos lá! Come mais um sanduíche. Depois você me conta!
Ele come.
Ela- E como se
chama?
Ele diz.
Ela- Que nome
infantil! E continua sendo uma criança mesmo... Não vou mais te chatear com o
assunto da dança. Mas diga lá. O que aconteceu de tão grave pra te fazer correr
desesperado? Brigou com alguém?
Ele- Na verdade não
foi nada de grave. Fui convidado pra jantar na casa de um professor da
faculdade, mas não devia ter ido. Não estou acostumado a sentar entre as
pessoas e conversar. Já esqueci, se é que você me entende. Entrei na casa com a
sensação de que algo não ia bem. E quando deixei a mochila no sofá me veio logo
a ideia de que logo precisaria dela. Tinha nessa casa uma gravura, uma gravura
estúpida que me aborreceu muito!
Ela- Gravura?
Ele- É... Era um
quadro. Um quadro que representava o Goethe, sabe, o poeta Goethe. Mas não
estava ali representado como ele mesmo. Na verdade, não se sabe muito como ele
foi na realidade, já morreu há quase 200 anos. Mas algum pintor teve coragem de
representa-lo tão arrumadinho, penteadinho, alambicado conforme sua imaginação
que o retrato ficou ridículo. Não sei se me compreende?
Ela- Perfeitamente.
Não se preocupe. Continua.
Ele- Eu sei que não
tinha a menor necessidade de estar olhando pro retrato.
Ela- Com certeza.
Ele- Mas em
primeiro lugar, eu tive muita pena daquele Goethe. Por ter enorme consideração
por ele e porque pensei: Estou aqui sentado entre pessoas que me parecem iguais
a mim e que devem amar Goethe tanto quanto eu e devem ter uma imagem dele como
eu tenho na alma e no entanto ali está aquele retrato falso e meloso e acham
maravilhoso, não tem a menor ideia de que o espírito desse retrato é o
contrário do espírito de Goethe. Acham o quadro admirável da mesma forma como
valorizam quase tudo que eu também estimo. Mas nessa altura eu já tinha perdido
toda confiança, amizade e sentimento de afinidade com essas pessoas ‘amáveis’. Até porque nossa amizade não era lá grande
coisa. Fiquei indignado, triste por me sentir incompreendido e sozinho. Você me
acha louco agora, claro?
Ela- Não! E depois?
Você quebrou o quadro na cabeça deles?
Ele- Não. Mas
cheguei a insultar o professor e saí correndo. Queria ir pra casa, mas...
Ela- Mas lá você
não encontraria nenhuma mamãe pra cuidar do nenenzinho. Nunca vi ninguém tão
criança quanto você!Há quase 200 anos Goethe está morto e (nome dele) o admira
tanto que faz dele uma ideia maravilhosa de como teria sido, e isso está no seu
direito não é? Mas o pintor, que também o admira e dele tem a sua ideia, está
errado, assim como o professor e já que isso não agrada (nome dele), ele fica
desesperado a ponto de insultar as pessoas e sair correndo. Se fosse uma pessoa
normal teria simplesmente rido do pintor e do professor. Se fosse louco teria
atirado o quadro na cabeça deles. Mas como não passa de um garotinho, só sabe
correr pra casa e pensar em se matar. Olha, compreendi muito bem a sua
história,(nome dele). É muito engraçada. Juro, me faz rir. Espera aí. Não
precisa beber tão rápido. Assim vai ficar muito mais bêbado! Nossa, a gente tem
que ensinar tudo pra você!(levanta-se)
Ele- Não. Por favor
senhorita! Não vai embora! Me ensina tudo!
Ela- O que mais
você quer que eu te ensine?
Ele- Tudo o que
achar que devo aprender!
Ela- Olha, vou te
dizer mais uma coisa. Há meia hora sei que se chama (nome dele). Sei porque te
perguntei. Mas você nem sequer se interessou em saber o meu nome.
Ele- Não! Por
favor! Me interesso sim!
Ela- Agora é tarde.
Se nos encontrarmos de novo, pode me perguntar. Hoje eu não digo. E agora eu vou dançar.
Ele- Espera! Não
vai! Você pode dançar o quanto quiser, mas volta pra cá depois!
(Ela sorri.) Volta?
Promete?
Ela- Prometo, mas
isso pode durar um instante, uma hora ou até mais. Fecha os olhos e descansa um
pouco. É disso que está precisando. (sai)
Nenhum comentário:
Postar um comentário